As certificações e o compliance

Artigo escrito por Tiago Martins

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Em um momento em que as certificações na área de compliance começam a surgir e a ganhar reconhecimento, ao contrário do que se imagina, o risco da desvalorização do trabalho realizado pelos profissionais de compliance é iminente.

Em um país em que infelizmente a lei do menor esforço e oportunismos muitas vezes prevalecem, é natural que processos de certificação de baixa eficácia na missão de minimizar os riscos de corrupção se multipliquem, criando uma referência de baixa credibilidade, e levantando uma grande cortina de fumaça através da qual “separar o joio do trigo” será uma missão quase impossível no curto e médio prazo, considerando-se especialmente o nível de conhecimento que se tem hoje acerca do tema em questão no nosso mercado (Compliance).

Tal fato levará ao atraso no desenvolvimento e no amadurecimento das nossas empresas para as necessárias práticas de compliance, tão relevantes para recolocarmos o Brasil no cenário internacional, e iniciarmos uma recuperação da credibilidade que invariavelmente significará uma elevação da nossa competitividade.

Partindo-se de um processo de certificação de baixa credibilidade, trabalhos sérios conduzidos por profissionais de compliance de alta capacitação, seriedade e experiência, serão igualados a outros não tão bem desenvolvidos e eficazes. É o nivelamento por baixo que pouco agrega valor para as empresas e para o mercado. É um selo que visa simplesmente a alimentação de grandes cadastros corporativos, mas que pouco serão capazes de garantir uma mudança no atual cenário do mercado e das práticas lesivas que foram enraizadas em muitas das nossas principais organizações.

Trabalho com sistemas de gestão há mais de 15 anos, e situação muito semelhante foi vivida pelos profissionais de qualidade no passado recente. Tão valorizados a partir da 2ª metade da década de 90, esses profissionais tornaram-se hoje, em grande número mantenedores de evidências que atendem a cadastros, e desenvolvedores de processos pouco capazes de transformar as organizações na busca pela eficiência, melhoria contínua e pela real satisfação dos clientes – grandes objetivos de uma certificação como a ISO 9001. Essa condição  desvalorizou proporcionalmente sua importância nas organizações, e, consequentemente, trouxe reflexos à remuneração desses profissionais, que, independentemente de competência, capacitação e experiência acumuladas, deixaram de auferir os valores anteriormente cobrados. Não à toa nosso país está entre os 12 do mundo em certificados ISO 9001 emitidos, e sequer chega a ser o 80º no ranking de eficiência mundial…triste realidade.

As certificações na área de compliance são um caminho sem volta. Aos profissionais de compliance que hoje estão vivendo a realidade narrada dos profissionais de qualidade, preocupem-se em conhecer e a valorizar processos de certificação que se traduzam em CREDIBILIDADE e EFICÁCIA de fato. A lei do menor esforço e o ganho momentâneo de notoriedade por meio de um selo de pouco valor real para a organização, cobra seu preço em pouco espaço de tempo, tanto dos profissionais dedicados ao assunto, como do mercado, que perde a oportunidade de ter uma referência em que confie. Ninguém melhor do que estes profissionais, que conhecem profundamente as melhores práticas, leis e diretrizes de compliance, para avaliar e frear iniciativas oportunistas frente a nossa sombria realidade. É a valorização do seu conhecimento e do seu trabalho que está em cheque.

Na última Cúpula Brasil Anticorrupção, a qual tive a honra de participar, fiz questão de frisar alguns pontos relevantes para que qualquer processo de certificação na área de compliance possa ser avaliado de forma imparcial e objetiva, antes de ser adotado como o grande objetivo de uma organização:

  • Verifique quantos certificados já foram emitidos pela certificadora e quais empresas os receberam. Compare esses dados com a realidade brasileira, sua expectativa, e tire suas conclusões;
  • Confira quanto tempo durou o processo de certificação e em quantas etapas ele foi conduzido. Faça uma avaliação do período frente ao tempo em que um programa de integridade completo e abrangente (ressalvando-se o tamanho da organização) levaria para ser implantado e qual deveria ser o seu “tamanho”. Use sua experiência e pergunte a si mesmo: o tempo considerado para o processo de avaliação da certificação seria suficiente para se obter uma amostragem representativa do sistema de gestão, e com a profundidade que se exige para o tema avaliado?
  • Verifique se a certificadora possui metodologia específica para conduzir a certificação ou se a abordagem de processos, comum nas certificações de sistema de gestão convencionais, é o único método adotado: como a disseminação da cultura da compliance foi avaliada na organização? Como foi feita a análise crítica por parte da certificadora quanto à Análise de Riscos conduzida pela organização certificada? Como os resultados tangíveis e intangíveis da implantação do sistema de gestão foram avaliados e percebidos durante o processo de avaliação? Use a sua experiência e avalie se você considera as respostas suficientes e adequadas.
  • Examine que metodologia o organismo certificador adotou para avaliar os objetivos e metas do sistema de gestão certificado. Como a compatibilidade e proporcionalidade frente aos riscos de corrupção inerentes às características da empresa e do negócio foram avaliados?
  • Se pergunte qual a relevância, abrangência e importância das evidências coletadas durante o processo de certificação.

Ninguém melhor que o próprio Compliance Officer capacitado para analisar essas informações e questionar aspectos que considere relevantes a cada uma dessas questões.

Independentemente da origem de um certificado ou de um selo, o mercado de certificação deve sim criar sua própria regulação. Faz-se necessário um processo de benchmarking, para identificar e disseminar o que vale a pena ser valorizado em termos de certificação de compliance. Blindando a expertise e a qualidade do trabalho que é desenvolvido pelos profissionais mais capacitados do ramo, e preservando o valor real que o trabalho precisa ter. Garantindo que a certificação seja, de fato, uma ferramenta importante na transformação da nossa realidade.


Tiago Martins é Engenheiro de Produção com especialização em Gestão de diversos segmentos. Com mais de 15 anos de experiência em sistemas de gestão, certificações e acreditações, é hoje sócio e Gerente Executivo da BRA CERTIFICADORA. É membro do grupo de trabalho fixo da BRA que desenvolveu o primeiro Programa de Certificação de Sistemas de Gestão Anticorrupção do Brasil.

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do Compliance Review. O Compliance Review não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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